escrevi isto 7 anos atrás e deu vontade de compartilhar aqui:
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quando eu vi tanta gente tentando enganar o outro eu me lembrei de tantas vezes não falar o que penso por medo de não ser aceita - me vi enganando.
quando eu vi tanta gente confusa, repetindo jargões por todos os lados sem pensar direito, sem sentir, sem olhar, eu me lembrei das tantas vezes que não vi o que estava à minha frente, cega pelas minhas certezas.
quando eu vi ódio eu me lembrei de toda raiva que senti, não me permiti acessar e não acolhi.
quando eu vi manipulação lembrei de tantas vezes desejar agradar o outro em uma conversa. tantas vezes querer mudar a emoção dele, sem respeitar a que estava se manifestando no momento.
quando eu vi crença na superioridade moral eu me lembrei do quanto eu acreditei que a vida era uma escada rumo à evolução. me lembrei das vezes que competi secretamente desejando ser a mais boazinha e a que salva a todos.
quando eu vi medo eu me lembrei de momentos em que me faltou coragem para me ver de verdade. ver toda raiva que senti e guardei. ver a inveja, a vaidade, o orgulho que se instalaram diversas vezes dentro de mim.
quando vi pena, me lembrei das vezes que quis salvar o outro porque me achava superior, não confiava em suas potencialidades.
quando vi o outro, me vi.
e quando me vi nele me lembrei que não estou sozinha aqui. aquele que parece tão diferente me mostra exatamente o que existe em mim. e eu quero dizer isso de todas as formas que conseguir.
eu escrevi isto há cinco anos e este tema apareceu na minha prática desta manhã. não porque ele se repete, idêntico. não sou a mesma, e quando acredito que algo se repete é porque ainda não consegui perceber a novidade que me traz.
talvez eu esteja triste, mas essa não é uma tristeza devastadora como um furacão que passa movendo tudo de lugar.
é só uma tristeza que surgiu depois da súbita consciência de que a pressa pra viver antes de morrer me fazia adiar o que era mais importante.
pensava que fazer o crucial marcaria imediatamente meu fim mas, descobri, eu precisava agora daquilo que percebi como mais importante. e vivê-lo não seria o fim da minha vida embora com certeza marcasse o fim de uma vida minha.
era principalmente o começo. o começo de uma nova vida.
e agora assumo a tristeza, essa que surgiu quando me dei conta de que esse começo não revela nada grandioso, nenhuma ação heróica causadora de enormes explosões de transformação em tudo.
é um começo tão simples quanto o cair de uma folha de uma árvore qualquer em seu devido tempo acompanhada do vento.
eu sinto essa tristeza me percorrendo devagar e já me sinto tomada pela beleza das sutilezas cotidianas. me emociona um pequeno pé recostado em minha perna e um braço com uma pele macia tocando de leve o meu.
essa simplicidade toda me toca a superfície e as profundezas e me move tão delicadamente que se vai todo o pesar por minha existência ser brisa.
quando nós nos deixamos sentir tudo o que chega pra sentirmos e não tentamos esconder, negar, reprimir as emoções, somos abraçados por uma transformação e surge um desejo de ação, que, tão sutil e tão integrado, se confunde com a própria ação.
o mais comum é não sentirmos tudo até o fim e nos distrairmos, então esse desejo-ação não chega a se manifestar, fica lá escondido junto com a emoção, gerando sintomas físicos variados.
mas às vezes temos coragem e suporte e confiança o suficiente para sentirmos tudo o que surgir em dado instante, mas há mais uma camada de emoção que surge junto com o desejo-ação, de que tentamos fugir. então reprimimos o desejo de novo.
toda vez que reprimimos esse desejo profundo que nasce de uma emoção plenamente sentida, agimos conforme uma norma social ou algo que já estava preestabelecido como o certo e, embora pareçamos puros e bons, estamos fazendo o mesmo que as pessoas que agem conforme seus impulsos imediatos. as ações de ambos surgem a partir de um condicionamento e uma tentativa de atingir um objetivo, de parecer algo: corajosos, bons, livres... para se sentirem, de algum modo, finalmente aceitos, felizes.
reprimimos esse desejo-ação porque viver essa experiência é viver uma transformação que nos deixa livres inclusive de ser quem acreditávamos tão fortemente que éramos de maneira sólida e definitiva. é viver com uma responsabilidade radical por cada instante e não abandonar o presente em troca de devaneios e vaidades.
o meu exercício dos últimos anos tem sido observar tudo o que não me deixo sentir e simplesmente parar de segurar a emoção, deixando o movimento acontecer naturalmente. mas eu ainda me vejo interrompendo minhas ações em nome de ser boa, dócil, paciente, cuidadosa, desprendida, ou qualquer coisa que pareça elevada. e isso é só continuar agindo conforme impulsos rasos e automáticos, sem presença real. e quando eu me dei conta disso, um caminho se abriu, de ação, de abertura e um desejo de escrever e compartilhar.
talvez ninguém leia isto, mas como é bom voltar a escrever sobre o que me ocorre.