eu escrevi isto há cinco anos e este tema apareceu na minha prática desta manhã. não porque ele se repete, idêntico. não sou a mesma, e quando acredito que algo se repete é porque ainda não consegui perceber a novidade que me traz.
talvez eu esteja triste, mas essa não é uma tristeza devastadora como um furacão que passa movendo tudo de lugar.
é só uma tristeza que surgiu depois da súbita consciência de que a pressa pra viver antes de morrer me fazia adiar o que era mais importante.
pensava que fazer o crucial marcaria imediatamente meu fim mas, descobri, eu precisava agora daquilo que percebi como mais importante. e vivê-lo não seria o fim da minha vida embora com certeza marcasse o fim de uma vida minha.
era principalmente o começo. o começo de uma nova vida.
e agora assumo a tristeza, essa que surgiu quando me dei conta de que esse começo não revela nada grandioso, nenhuma ação heróica causadora de enormes explosões de transformação em tudo.
é um começo tão simples quanto o cair de uma folha de uma árvore qualquer em seu devido tempo acompanhada do vento.
eu sinto essa tristeza me percorrendo devagar e já me sinto tomada pela beleza das sutilezas cotidianas. me emociona um pequeno pé recostado em minha perna e um braço com uma pele macia tocando de leve o meu.
essa simplicidade toda me toca a superfície e as profundezas e me move tão delicadamente que se vai todo o pesar por minha existência ser brisa.
escrevi 8 anos atrás:
quem ou o que você vê quando olha para alguém? você vê títulos, empregos, diplomas, fazeres e não fazeres? você vê erros, inteligências, amorosidades, inseguranças, desrespeitos?
você pode apenas ver?
você pode, ao invés disso tudo, apenas compor, instante após instante, em presença atenta, o mundo, enquanto se encontra com alguém ou algo?
uma criança com suas necessidades atendidas: físicas, emocionais e afetivas - é naturalmente generosa.
uma criança que se sente ilegítima pode ser aparentemente generosa ou egoísta, mas o fará para preencher a falta, para lidar com a sensação de desamparo, no fundo pedindo ajuda para ter suas necessidades atendidas.
e isso segue até a vida adulta. para um adulto com suas necessidades atendidas é natural ser generoso, atencioso, cuidadoso, assertivo e honesto.
as crianças não precisam que as ensinemos nada dessas coisas. elas precisam ter suas necessidades atendidas - o que inclui oferecê-las limites claros.
mais um escrito de 8 anos atrás que fiquei com vontade de compartilhar.
:)
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Meu nome é Pollyanna. Isso poderia não dizer nada de mim, mas diz. Ao longo da vida vi algumas pessoas usarem esse nome para falar sobre gente que enxerga a vida de forma romantizada, vendo apenas o lado bom de cada situação e pessoa. Eu sempre achei legal associarem meu nome a isso, até porque eu tinha essa visão cor-de-rosa do mundo.
Eu sabia da existência do livro homônimo, mas só fui ler quando tinha uns 20 anos, ao ganhá-lo de presente. Quando li me identifiquei com a Pollyanna e fiquei super feliz de ter jogado o jogo do contente antes.
Eu acreditava de verdade que tudo tinha um lado bom e preferia me manter olhando para ele - o que tornava minhas relações mais leves e deslocadas da realidade.
Ao olhar só para o lado bom das vida, das pessoas, do mundo, eu ignorava aspectos que compunham a realidade e não aceitava nada, nem ninguém integralmente. Era como se eu precisasse que as pessoas fossem lindas e perfeitas para que eu pudesse gostar delas e viver no mundo com tranquilidade. E, claro, essa visão também se aplicava a mim mesma. Eu não admitia sentir nada que considerasse negativo: raiva era uma emoção proibida. Eu não podia ter inveja, egoísmo, orgulho dentro de mim.
Com o tempo fui aprendendo a olhar mais pra mim, vendo além do estereótipo de "boazinha" e passei a perceber que eu sentia raiva, que às vezes tinha inveja, egoísmo, orgulho e que dentro de mim havia uma porção de outros sentimentos e características que eu desprezava. Nesse movimento fui me abrindo para ver as outras pessoas verdadeiramente também, fui me abrindo para ver e viver no mundo real.
Encarar a vida e as outras pessoas de verdade foi até fácil, me ajudou a compreender melhor suas ações e motivações e a confiar mais nelas. Mas encarar as emoções e os sentimentos considerados negativos em mim foi doloroso. Não queria abrir mão de ser boazinha. Corria o risco de ninguém gostar mais de mim, já que eu mesma passei tanto tempo achando que só se podia gostar das pessoas e da vida se fossem boazinhas.
Ao me relacionar com o outro, escutando-o atentamente e compreendendo o que sentia fui também entendendo e aceitando minhas próprias emoções e sentimentos. Comecei a ver as situações da vida como caminhos cheios de possibildades. Comecei a ver que a vida não é boa nem ruim, apenas é. Comecei a ver que as pessoas não são boas nem ruins, apenas são. Comecei a ver que emoções também não são boas nem ruins, apenas são. Parei de precisar de artifícios para me sentir confiante por aqui.
Imagine que fui trancada em um quarto escuro. nessa situação eu me lembraria de procurar o lado bom daquilo tudo: "posso pensar na vida, posso cantar sozinha, posso sei lá o que mais". ficaria plena, linda e feliz. Eu me enganaria. Desrespeitaria meus próprios sentimentos. Se eu estiver trancada em um quarto escuro eu vou ficar triste, eu vou chorar, eu vou ficar com raiva. Talvez aceitando esses sentimentos eu perceba que a maior liberdade que tenho é a de poder lidar com tudo o que chega para mim, talvez eu ache bom poder chorar sozinha e pensar sobre a vida, talvez eu consiga meditar. Pode ser que eu veja um buraquinho na janela de onde eu consiga olhar para fora, onde vejo pássaros voando. Pode ser que esse olhar me permita ver além da tristeza e sentir alguma liberdade ali dentro. Mas se eu não acolho quem sou em inteireza e simplesmente invento um jeito de ficar bem, nenhuma das ações vai expressar o que de fato sinto e eu vou ficar completamente desconectada de tudo. Mas se eu acolho a realidade do que acontece a cada momento, eu me integro, fico presente - e isso talvez seja tudo o que a vida requer.
A vida é intensa, é fluida, é dinâmica. Ao enfatizar e querer ver o lado bom eu afirmava a existência de um lado ruim e tornava nítida uma visão pautada na dualidade. Quando eu me vejo em inteireza e acolho cada emoção que surge eu me aceito completamente, integralmente. Quando eu vejo as pessoas em sua complexidade e acolho cada um de seus aspectos eu aceito sua existência incondicional. Quando eu vejo de verdade me abro para me relacionar por inteiro.
Percebo as relações e o mundo como complexidades em constante interação, que abrem novas possibilidades a cada ação, cada sentimento e cada emoção que surge. Não preciso esconder a raiva, a inveja, o egoísmo, porque são apenas oportunidades de me enxergar mais profundamente para que eu perceba minhas potencialidades e aja de acordo com minhas necessidades internas. Não preciso ser boazinha ou que me vejam como boazinha porque minha existência é incondicional e não há maldade pulsando em meu ser pronta para emergir. Porque só quer ser bom quem acredita que é ruim. E, por fim, não preciso ver o lado bom de nada porque tudo apenas é - a cada instante.